Planalto adota discrição e aposta que mudança do senador para a Flórida enfraquece o bolsonarismo. Petista irá à cúpula do G20 em resort de Trump, em Miami, em dezembro

O silêncio do governo em relação a fuga do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos tem motivos estratégicos neste momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito, começará um roteiro internacional e, internamente, se dedicará a montagem de sua base no Congresso para o quarto mandato. A ordem no Palácio do Planalto é de discrição e, de acordo com integrantes do governo "deixar que os fatos falem por si". Lula chegou a comentar em seu discurso na terça-feira, 27, a saída do senador do país, após a derrota nas urnas, comparando com a situação com a que enfrentou quando foi preso pela Lava Jato. Depois disso, o Planalto buscou tratar o assunto "Flávio" como "problema da Justiça". 

Fatores não faltam para essa postura. "Lula não dará a Flávio a grandeza que ele acha que tem", disse uma fonte do governo. A aposta é de que a transferência de Flávio para os Estados Unidos enfraquece o bolsonarismo, inclusive diante da direita, que tenta se reorganizar para oferecer uma alternativa fora do clã Bolsonaro nas próximas eleições. Nesse quesito, as atitudes de Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo, e de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, indicando a a necessidade de se reconhecer a lisura do processo eleitoral corroboraram o cálculo feito no governo. 

Além disso, Lula quer afastar o assunto das conversas que pretende ter com líderes internacionais ainda neste ano, inclusive com Trump. O presidente vai aos Estados Unidos em dezembro deste ano para participar do encontro de cúpula do G20, evento que ocorrerá em um complexo de golfe e hotel de propriedade de Trump, em Doral, região metropolitana de Miami. Uma conversa entre os dois é esperado.

Apesar do alinhamento do governo de Trump, especialmente do secretário de Estado Marco Rubio, com a família Bolsonaro, o governo brasileiro avalia que houve a abertura de possibilidade de diálogo e enxerga pouca disposição de Trump de apoiar Flávio em sua tentativa de liderar a oposição no Brasil residindo na Flórida. Na quarta, Trump evitou apoiar declaração de Flávio que se autointitulou "o verdadeiro presidente do Brasil. Conta ainda no cálculo do governo o fato de Trump enfrentará as eleições de meio de mandato em novembro e as perspectivas não são as melhores para o presidente norte-americano que pode ver encolher seu apoio.