Presidente é cobrado por aliados a antecipar anúncios sobre a composição da Esplanada dos Ministérios, mas diz que deixará as definições para depois da agenda internacional

Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm questionado a capacidade do petista de acomodar na Esplanada dos Ministérios ex-integrantes da atual gestão, aliados derrotados nas eleições e nomes do Centrão. O bloco será decisivo para garantir a governabilidade diante de um Congresso mais à direita a partir do ano que vem. Apesar do desafio e das cobranças por sinalizações sobre a composição da nova equipe, Lula tem dito a interlocutores que pode deixar para tratar da nova composição do governo após a viagem à Turquia e às Filipinas, com retorno previsto para 16 de novembro.

Nos últimos dias, o presidente viu crescer, entre aliados e representantes do mercado financeiro, a pressão por definições sobre a área econômica. Entre os cotados para assumir a Fazenda estão o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). O desempenho de Fonteles no estado, onde Lula obteve 75,88% dos votos válidos e venceu em todos os municípios, reforçou o peso do governador nas articulações. Ele é visto por correligionários como um nome com preparo técnico e capital político para comandar a pasta e, segundo governistas, sinalizou disposição de deixar o cargo caso receba o convite. Uma ala do PT, por outro lado, avalia que Fonteles pode ter papel importante na renovação do partido e na sucessão de Lula, o que alimenta dúvidas sobre sua eventual saída do Executivo piauiense.

O retorno de Fernando Haddad (PT) à Fazenda está, até o momento, descartado. Segundo aliados, o ex-ministro cumpriu uma “missão” ao disputar o governo de São Paulo, em uma eleição na qual Tarcísio de Freitas (Republicanos) era considerado amplo favorito. Haddad é tratado como um “ministro coringa” e pode ser aproveitado em outra área. Uma das possibilidades em discussão é o Ministério da Justiça, que deve ser separado da Segurança Pública. Ele também perdeu força na disputa pela Casa Civil, que passou a ter Camilo Santana (PT-CE) como principal cotado. A atuação do senador nas campanhas de reeleição de Lula e de Elmano de Freitas (PT), no Ceará, fortaleceu seu nome junto ao presidente. Ex-ministro da Educação, Santana também é cogitado para a Segurança Pública.

A lista de aliados que Lula pretende acomodar inclui outros derrotados nas urnas. A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB), que disputou o Senado por São Paulo e não se elegeu, aparece entre os cogitados para voltar à Esplanada, assim como a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), que também perdeu na disputa paulista. O ex-ministro Márcio França (PSB), que integrou a chapa de Haddad, é igualmente lembrado por interlocutores. A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), outra petista que não conseguiu uma vaga no Senado, é ventilada para o Desenvolvimento Social. Já o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), derrotado na corrida ao governo de Pernambuco, está entre as opções para Ciência e Tecnologia. Randolfe Rodrigues (PT-AP), Paulo Pimenta (PT-RS), Carlos Fávaro (PSD-MT) e Eduardo Paes (PSD) também são mencionados nas tratativas.

A conta da governabilidade no Lula 4 passará ainda pelo Centrão. O presidente orientou aliados que participaram ativamente da campanha à reeleição a abrir conversas com lideranças do bloco, entre elas o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Também os autorizou a acenar com espaço na Esplanada a integrantes da federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. A negociação, contudo, traz de volta um problema que marcou o terceiro mandato: a distância entre o número de partidos com assento no governo e o apoio efetivo que essas legendas entregam no Congresso. Mesmo com PSD, MDB e União Brasil à frente de três ministérios cada um, além de PP e Republicanos também contemplados, Lula enfrentou sucessivos episódios de infidelidade da própria base, inclusive em votações de interesse direto do Planalto.